| O garrote de Gaza |
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| Produzido por José Goulão | |||
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Há cerca de duas semanas um grupo de renomadas organizações não governamentais lançou o alerta: doze meses passados sobre a catástrofe imposta pelo governo e pelo exército de Israel à população indefesa de Gaza as instituições internacionais não cumpriram uma única das promessas de apoio e socorro feitas enquanto se desenrolava a tragédia. Na ocasião, muitos políticos, muitos governos, muitas organizações transnacionais multiplicaram declarações piedosas prometendo todas as formas de auxílio para que a população de Gaza – mais de milhão de meio de pessoas amassadas numa minúscula faixa com 300 quilómetros quadrados – pudesse passar a viver com um mínimo de dignidade.
Nos últimos dias voltaram a registar-se afloramentos de violência militar contra o território, diz-se que como resposta de Israel a novos lançamentos de “rockets” efectuados “pelo Hamas”, afirmação que pode nem ser exacta tantos são os grupos e grupinhos que se reproduzem em Gaza, alimentados pelo desespero, pela revolta, pelo ódio perante uma situação que fecha por completo os horizontes dos que lhe estão sujeitos.
Ao mesmo tempo, o zelo de que o regime egípcio dá provas para tornar invulnerável a fronteira com Gaza exacerbou a impaciência dos habitantes do território ao constatarem que um país árabe “irmão” adopta um comportamento idêntico ao de Israel. É fácil perceber que o silêncio do governo da Autoridade Palestiniana e do presidente Mahmud Abbas perante o comportamento egípcio não facilita qualquer processo de reconciliação nacional, absolutamente necessário para que a resistência palestiniana volte a ter condições mínimas para lutar pelos seus direitos nacionais. Se, por absurdo, as autoridades de Ramallah estiverem a apostar na solução do problema do “enclave” fundamentalista de Gaza através do prolongamento do cerco, mais tarde ou mais cedo acabarão por pagar muito cara essa opção. As maiores vítimas serão, novamente, os palestinianos – tanto os de Gaza, como os da Cisjordânia, Jerusalém Leste e também os da diáspora, cada vez mais longe se verem reconhecidos e restaurados os seus direitos.
O território de Gaza é um dos mais afectados do mundo pelos problemas humanitários. Tem uma das maiores densidades populacionais do planeta, esmagadoramente dominada pelos estratos mais jovens; não tem recursos naturais ou, devido ao cerco, não pode explorar os escassos que restam; não tem água, não tem condições sanitárias mínimas; o sistema de saúde está em ruptura; a habitação degrada-se, sobretudo a dos campos de refugiados, que já nasceu em condições improvisadas; a insalubridade é geral, o desemprego é absoluto e as réstias de trabalho dependem do crivo que Israel gere conforme as suas necessidades de mão-de-obra escrava de um território transformado em campo de concentração.
O “muro de aço” cancelará, talvez, o tráfico de armas. Mas, impede, pela certa, a entrada em Gaza de bens essenciais que só por essa via chegavam a Gaza e mitigavam, ainda que de modo muito limitado, as carências gerais. Um ano depois, a guerra contra Gaza trava-se com a arma da fome.
Este processo desenvolve-se num quadro geral do Médio Oriente dominado pela estratégia do primeiro ministro israelita Benjamin Netanyahu. Embora com algumas dificuldades pontuais para disfarçar a agitação da extrema-direita e do fundamentalismo religioso, procurando aparentar uma conveniente moderação, Netanyahu conduz o jogo diplomático e militar desde o momento em que se convenceu que o presidente dos Estados Unidos não transforma em actos as intenções anunciadas em relação ao processo diplomático.
Barak Obama, como se sabe, começou por pedir a Israel o congelamento da construção e expansão dos colonatos nos territórios palestinianos de modo a criar um clima propício ao reinício de negociações entre as partes em conflito. Netanyahu respondeu inicialmente que não suspenderia a colonização para não travar o “crescimento natural” desses agregados habitacionais, reconhecidamente ilegais; depois sugeriu mandar parar as obras durante 10 meses para “testar” as intenções palestinianas; na mesma altura permitiu que fosse anunciada a construção de novas habitações judaicas em Jerusalém Leste alegando que este território não é objecto de negociações – argumento mais do que suficiente para inviabilizar quaisquer conversações.
Barak Obama e a sua secretária de Estado Clinton nunca se opuseram abertamente a estas práticas de Netanyahu, limitando-se a ligeiros e inconsequentes reparos. Por outro lado, assumiram de maneira clara a estratégia do governo de Israel para a região: o isolamento do Irão procurando agregar os principais países árabes a essa política, entre eles o Egipto. Mahmud Abbas e a própria Autoridade Palestiniana têm alimentado alguma ambiguidade em relação a estes movimentos estratégicos, mesmo sabendo que o governo israelita pretende impor o Irão como o principal problema do Médio Oriente, procurando dissolver nele o conflito israelo-palestiniano, assim relegado para plano subalterno.
Um sinal dessa ambiguidade foi dado por Mahmmud Abbas ao começar por aceitar o adiamento da discussão do relatório das Nações Unidas que considera ter havido “crimes de guerra” na invasão israelita de Gaza, embora revendo pouco depois essa posição. De qualquer modo tornou-se claro que a Autoridade Palestiniana está refém das promessas norte-americanas sobre o reinício das negociações de paz e evita assumir qualquer gesto que possa ser invocado como obstáculo tanto por Netanyahu como por Obama. Daí o silêncio perante as iniciativas egípcias para Gaza, desenvolvidas no âmbito da convergência estratégica entre o Cairo, Washington e Telavive.
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Passado um ano, a situação tornou-se ainda mais grave. À morte súbita desencadeada pelos instrumentos de guerra sucedeu a morte lenta, agonia de que grande parte do mundo mal se apercebe porque não abre telejornais nem preenche manchetes. A não ser que um desesperado ou um fanático lance um artefacto mais ou menos artesanal para as costas das tropas sitiantes e então sim estamos perante um acto de terrorismo. O resto, o cerco asfixiante, insere-se nos rotineiros mecanismos defensivos do Estado de Israel.
O regime egípcio de Hosni Mubarak alega que a criação do chamado “muro de aço” para vedar os túneis de acesso a Gaza se deve à necessidade de impedir o tráfico de armas, uma medida exigida por Israel de modo a que não sejam afectadas as relações entre os dois países. O Egipto, por sua vez, pretende que este gesto de “boa vontade” proporcione condições para relançar o processo de negociações entre israelitas e a Autoridade Palestiniana.