Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".
A Coligação de Esquerda Syriza adquiriu em 6 de Maio, nas eleições gregas, um protagonismo europeu à medida da intensa actividade de luta e mobilização contra a austeridade que há anos desenvolve na Grécia. Atingida por uma campanha de desinformação e manipulação devido à expressão política que conseguiu dar à revolta dos gregos contra a autocracia fundamentalista neoliberal europeia, Syriza tem um programa, um projecto, representa uma alternativa ao "inferno social". Alexis Tsipras, presidente do grupo parlamentar da Syriza expõe essa realidade numa entrevista ao Guardian com versão em português em www.esquerda.net
A pequena localidade de Tiquipaya, em Cochabamba, Bolívia, juntou esta semana mais de 40 mil pessoas numa nobre cruzada para salvar a existência do nosso planeta. Entre elas estavam cinco Chefes de Estado, dois laureados com o Nobel de Paz, representantes de 181 Estados, activistas, cientistas e alguns poucos jornalistas, especialmente dos média sul-americanos. Será que o mundo ocidental se esqueceu de colocar este “pequeno” evento nas agendas de trabalho e da comunicação social?
Da Conferência "O clima farto de nós?", Lisboa, Março de 2010
Fotografia de Paulete de Matos
"Não podemos melhorar o mundo se não o salvarmos, mas podemos salvar o mundo melhorando-o", Lothar Bisky
Por Helena Carvalho e Nelson Peralta
As comunicações e os debates de sábado na conferência "O Clima farto de nós?" proporcionaram abundantes fontes de informação sobre não apenas o estado actual das alterações climáticas mas também das reflexões e investigações que estão a ser feitas para as combater. "O clima não espera pelo socialismo", lembrou Miguel Portas defendendo acções amplas, coordenadas e corajosas nas quais a Esquerda deve assumir um papel determinante para que as mudanças fundamentais à salvação do planeta promovam a justiça social e combatam as desigualdades. Por isso, Lothar Bisky recordou o enorme desafio que será a próxima Cimeira dos Povos em Cochabamba para que os movimentos sociais e de esquerda invertam as tendências negativas como elas se reflectiram em Copenhaga e, provavelmente, continuarão a reflectir-se em Cancun.
As alterações climáticas, a poluição, o aquecimento global, as formas de os combater de modo humanista e capaz de salvar o planeta são temas políticos de flagrante actualidade. Esta uma das mensagens fundamentais de "O Clima farto de nós?", iniciativa que o Bloco de Esquerda está a promover este fim de semana em Lisboa. Ao contrário das teses neoliberais que depois proporcionam fracassos como o da Cimeira de Copenhaga, discutir a preservação da Terra é uma questão política, não cabe na amálgama tecnocrática, faz-se com fronteiras bem definidas entre a Esquerda e a Direita, entre o humanismo e o negócio, entre a defesa da vida humana e o lucro. Até prova em contrário, o clima está realmente farto de nós; cabe-nos fazer as pazes com o clima e colocar o assunto na agenda política no capítulo das prioridades absolutas. Associar-se a esta acção do Bloco em Lisboa é uma boa ideia e um acto de cidadania.
O clima está a mudar - é uma realidade dos nossos dias. Nas últimas horas, por exemplo, chegaram sinais de alarme das Mongólia, onde o modo de vida pastoril, sobrevivência de uma nação, está ameaçado pelo aquecimento global. O que fazer quando os problemas climáticos se fazem sentir já em todo o planeta, dos Pólos ao Equador? Durante o fim de semana, em Lisboa, especialistas de várias áreas sociais e científicas e de diferentes partes do mundo avaliaram o problema, propuseram acções, defenderam soluções. Mais uma vez se apurou que o debate é político e que as questões climáticas e ambientais prosseguirão por caminhos desastrosos e irreversíveis caso continuem a ser guiadas pela tecnocracia neoliberal que ditou fracassos como o de Copenhaga.
À beira da histórica Cimeira dos Povos em Cochambamba, na Bolívia, e prevendo-se novos impasses em mais uma cimeira da ONU, desta feita em Cancun, no México, o Bloco de Esquerda e a Esquerda Europeia deixaram o seu contributo para um debate e uma acção sobre um tema que, ao contrário da tese de Obama, tem Esquerda e Direita, tem barricadas para definir os campos desta batalha política.