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Miguel Portas

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The Guardian, 14/05/2012

Os gregos são alérgicos à austeridade

Marisa Matias

E a Grécia aqui tão perto

Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".


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O "inferno social" na Grécia

A Coligação de Esquerda Syriza adquiriu em 6 de Maio, nas eleições gregas, um protagonismo europeu à medida da intensa actividade de luta e mobilização contra a austeridade que há anos desenvolve na Grécia. Atingida por uma campanha de desinformação e manipulação devido à expressão política que conseguiu dar à revolta dos gregos contra a autocracia fundamentalista neoliberal europeia, Syriza tem um programa, um projecto, representa uma alternativa ao "inferno social". Alexis Tsipras, presidente do grupo parlamentar da Syriza expõe essa realidade numa entrevista ao Guardian com versão em português em www.esquerda.net

As circunstâncias PDF Versão para impressão
Produzido por José Goulão   
Sexta, 04 Junho 2010 09:42

Começam, finalmente, a ser conhecidas as circunstâncias do assalto ao navio principal da frota que levava ajuda humanitária para Gaza.

Telavive afirma que os seus soldados foram atacados e difundiu imagens que indicam isso mesmo. O governo israelita mostrou ainda fotografias do "material de guerra" a bordo do "navio do ódio". Ao contrário da sequência filmada, as fotos não provam nada. Facas de cozinha, chaves de fendas, paus e correntes são comuns em qualquer porão. E as máscaras anti-gás e fisgas incluídas no "arsenal" nem com boa vontade se podem catalogar como ofensivas.

Entretanto, com a libertação, sob pressão internacional, dos 648 prisioneiros não israelitas que integravam a frota, começou a ser conhecido o ponto de vista dos sitiados. Eis o depoimento do jornalista da Al Jazeera, Mohamed Vall: "durante hora e meia pensámos que ninguém sobreviveria ao ataque israelita quando vimos 30 navios de guerra rodeando o nosso barco. Ficámos com medo de uma guerra total contra um barco repleto de homens, mulheres e até de crianças. Os primeiros soldados a entrar no barco não foram mortos, foram capturados pelos defensores do barco que fizeram um escudo humano". Foi uma mistura de pânico, medo e raiva, que explicou a reacção dos tripulantes ao desembarque dos primeiros soldados. A espantosa inépcia com que a operação foi montada ajuda a compreender o que se seguiu. Demos de novo a palavra a Mohamed Vall: "momentos depois, outro helicóptero maior depositou mais soldados e dessa vez dispararam imediatamente contra as pessoas e mataram todas as que podiam para poder chegar à cabina e tomar conta do barco". Os banhos de sangue nem sempre obedecem a planos premeditados. Muitas vezes, são consequência de decisões políticas que derraparam no plano da execução militar. É, aparentemente, o caso. Othman Battiri, outro membro da equipa da Al Jazeera, relata a sequência dos soldados e oficiais de cabeça perdida: "primeiro lançaram bombas de gases lacrimogéneos e dispararam balas de borracha e algumas pessoas ficaram feridas por estas munições. Depois passaram a usar munições de guerra, feriram vários homens e observei que quatro pessoas ficaram mortas. Vi dois homens morrer ao pé de mim, um deles tinha uma bala no peito, outro sangrava abundantemente. Descemos e encontrámos mais mortos: um deles tinha uma bala na cabeça como se tivesse sido atingido por um franco-atirador. Havia munições de guerra por todo o lado. Cerca das sete da manhã começaram a entrar nos nossos camarotes e a amarrar-nos as mãos".

Já não é, contudo, possível, invocar a circunstância da espiral de medo e sangue para explicar ordens que ocorrem bem depois da matança. Um deputado egípcio e médico dentista, Hazem Faroug, declarou que "quando tentámos transportar os feridos, os soldados israelitas impediram-nos, disseram que não podiam ser os homens a fazê-lo. Apontaram-nos armas à cabeça com iluminação laser e disseram às mulheres para levar os feridos. Algumas não conseguiram..."

 

Ao contrário do que faz crer a propaganda sionista, as coisas não correram mal por causa dos activistas, mas porque a combinação entre decisão política e execução militar se revelou trágica. A decisão política existiu: os barcos não deveriam chegar ao seu destino, acontecesse o que acontecesse. E houve uma operação militar: se as imagens divulgadas por Israel "explicam" algo, é que o nível de incompetência revelado no assalto foi tão responsável pela tragédia quanto a decisão política.

Atirar as "culpas" sobre os tripulantes do barco é que não lembra ao diabo. De um lado estão militares armados e presumivelmente disciplinados, obedecendo a um plano de operações; do outro, civis entre o pânico, a indignação e a raiva. Alguns resistiram? Como não? Pior do que a decisão e muito pior do que a incompetência, só o modo como se tira a água do capote. Definitivamente, Israel já não é o que era...

 

Perguntar-me-ão: e os activistas não esticaram a corda ao não obedecerem às ordens da defesa marítima israelita? A resposta a esta pergunta mais do que legítima divide-se em duas partes: por um lado, esta era a nona tentativa desde que, em Agosto de 2008, se constituiu o movimento internacional que tem conseguido quebrar, episodicamente, o bloqueio a Gaza. Das iniciativas passadas, cinco tiveram sucesso e três foram travadas pelas autoridades do Estado de Israel. Em nenhuma delas, contudo, houve vítimas mortais a registar. Em nenhuma delas, os militares israelitas se comportaram com os estrangeiros como se eles fossem palestinianos... Por outro lado, este movimento de ajuda humanitária não tem por principal objectivo a mediatização. Ele quer mesmo furar o bloqueio e demonstrar que é possível fazê-lo usando contra as armas, meios de resistência não violenta. Que é possível à "sociedade civil" ser eficaz onde a paralisia da comunidade internacional bordeja a cumplicidade. Forçar a corda é a condição de passagem. Inverter os parâmetros de responsabilidade ou imitar Pôncio Pilatos (ao estilo, "houve culpas dos dois lados") é esquecer o essencial: que Israel aprisionou, desde Agosto de 2008, milhão e meio de almas a céu aberto e que lhes nega o mínimo de condições de dignidade na sobrevivência. Anteontem, o embaixador de Israel em Bruxelas chegou atrasado a uma audição no Parlamento Europeu e exibiu a sua indignação por sido "bloqueado" durante duas horas e meia numa embaixada cercada por manifestantes pró-palestinianos. Foi preciso que alguém lhe perguntasse se conseguia imaginar a indignação dos de Gaza, sob bloqueio há dois anos, para se perceber como o mundo é visto em função da cadeira onde cada um de nós se senta...

Por mim, deixo-lhe apenas uma pergunta: imagine que os indonésios tinham considerado o "Lusitânia" como uma "arma de guerra" ao serviço dos "terroristas de Xanana Gusmão", que o barco em que ia Ramalho Eanes decidia desobedecer pacificamente, e que os militares da ocupação tinham actuado como agora o fizeram os israelitas. De que lado estaria? No meio de lado nenhum?