| O segredo da corda que não parte |
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| Produzido por José Goulão | |||
| Quinta, 25 Março 2010 14:57 | |||
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A estratégia de Benjamin Netanyahu nas relações com a administração Obama parece, se os olhares forem pouco atentos, uma fuga para a frente ou até uma jogada suicida. Nada disso. O actual primeiro ministro de Israel transformou-se no político com mais poder em todos os assuntos do Médio Oriente. Ele enredou o imperador na sua própria teia. Netanyahu estica a corda, diz-se. É verdade: mas pode esticá-la à vontade porque descobriu o segredo da corda que não parte. De onde saiu este político que, no interior do cenário atrás descrito, merece que se lhe tire o chapéu por ser brilhante a executar o que se propôs fazer – tanto o que prometeu como, sobretudo, o que cala e vai realizando? Netanyahu é o produto exemplar das circunstâncias em que assentam as relações entre os Estados Unidos e Israel. É um político israelita e, ao mesmo tempo, um político americano. Move-se com toda a ligeireza nos corredores de Washington e nos meandros das determinantes influências judaicas na política norte-americana. Com mais sagacidade até, eventualmente, do que nos labirintos retorcidos montados pela extrema direita israelita, laica ou fundamentalista religiosa. A sua formação fez-se na política norte-americana com doutoramento obtido no exercício do cargo de embaixador israelita nos Estados Unidos. Em Português vernáculo, Netanyahu entalou Obama desde o primeiro momento. Como já tinha entalado Clinton, os Bush pai e filho, embora não se percebesse tanto porque estes nunca tiveram a veleidade de sugerir ao primeiro ministro de Israel qualquer coisa que ele não devesse fazer. Netanyahu manipula o actual presidente dos Estados Unidos. Ali não há coincidências nem jogadas mal calculadas. O chamado processo de paz estava morto quando Obama tomou posse e morto continua por muitas negociações indirectas que lhe injectem. Os louros da liquidação das negociações directas e da herança pacifista de Isaac Rabin cabem a Benjamin Netanyahu muito mais do que a Ariel Sharon, embora ambos tenham estado bem visíveis – sobretudo através da mobilização trauliteira dos colonos – nos movimentos golpistas e de desestabilização que inviabilizaram o projecto de Rabin e que, em última análise, criaram as condições, pelo menos subjectivas, para o seu assassínio. Quando a diplomacia norte-americana tirou agora da cartola a ideia das negociações indirectas – porque precisa de apresentar algo na questão israelo-palestiniana de modo a alargar apoios na campanha contra o Irão – Benjamin Netanyahu aderiu com enorme disponibilidade enquanto, na sombra, vai mexendo os cordelinhos das ameaças a Teerão. Ao mesmo tempo surgiram, pingando com maestria mediática, as notícias de novos passos na colonização: 120 casas na Cisjordânia, 1600 em Jerusalém Leste, mais 20 em Jerusalém Leste... Colonização sempre houve desde 1967, nunca foi interrompida, é um processo gradual de anexação dos territórios palestinianos, os tais onde, segundo se diz, deverá assentar o futuro Estado palestiniano, essa miragem flutuando sobre as áreas que em Israel são conhecidas, sem restrições, como Judeia e Samaria, parte implícita da nação judaica. O aparecimento de notícias sobre a colonização obriga a Casa Branca e o Departamento de Estado a tomar posição para conseguirem arrastar a Autoridade Palestiniana à mesa das negociações indirectas. Pedem então, em coro, o congelamento da colonização. Netanyahu responde que as construções na Cisjordânia são necessárias por questões de espaço vital dos colonatos existentes e que em Jerusalém Leste o problema não se coloca porque a zona faz parte da capital de Israel mesmo que as leis internacionais não o aceitem. Obama, Biden, a senhora Clinton suplicam de novo o congelamento das construções acrescentando, num arremedo contemporizador, que nada disto põe em causa a relação privilegiada entre os Estados Unidos e Israel e o compromisso norte-americano com a segurança israelita. Netanyahu agarra nesta deixa, empolga-a mediaticamente, diz que o fundamental é “construir confiança” entre as partes, acusa os palestinianos de intransigência e alguém lá atrás, nas camadas intermédias do poder israelita, anuncia mais construções... Obama e a senhora Clinton sabem que não podem ir mais além do que suplicar burocraticamente o congelamento. O secretário geral da ONU e o Quarteto recitam banalidades. Netanyahu argumenta que se as negociações não recomeçam a culpa não é dele. Desde a segunda metade dos anos noventa que não tem feito outra coisa que não seja, de facto, entravar ou liquidar negociações dizendo que quer negociar. A verdade é que sem negociações, com a colonização e a criação de condições de vida impossíveis aos palestinianos através do bloqueio de Gaza e do muro da Cisjordânia, o governo de Israel não pode querer melhor cenário. Por este andar falar-se-á ainda em negociações quando já nada houver para negociar. E se um presidente dos Estados Unidos, por absurdo, ousar romper o status quo e tomar uma atitude penalizadora contra Israel será ele a principal vítima do tumulto que provocará, estando as coisas no ponto a que chegaram. Obama abriu o jogo com Netanyahu e mostrou-lhe os limites máximos da capacidade de manobra da Casa Branca em relação a Israel. Netanyahu vai continuar a esticar a corda. Ele conhece o segredo da corda que não parte. Chapeau!
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