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Visita "de cortesia" PDF Versão para impressão
Produzido por Marisa Matias   
Sábado, 21 Julho 2012 13:26

Tal como estava previsto, os senhores de pastas negras, únicos detentores da experiência que nos dita se estamos a ir no bom caminho ou não, lá vieram fazer a avaliação do estado de aplicação do memorando da troika. Portugal está a ir no bom caminho, lá continuam a afirmar.

Há apenas um "pequeno" percalço: é que a quebra nas receitas fiscais pode pôr em causa o controlo do défice. Assimsendo, qual é à receita? Os senhores das pastas pretas não têm muita imaginação, convenhamos, e lá indicaram que eram necessárias mais umas medidas de austeridade. É que é preciso manter o programa, o sector financeiro lá continuará intocável, mas há margens que têm de ser asseguradas. E, mais uma vez, sem  surpresa, calhou que as margens ficassem a cargo dos rendimentos do trabalho. Ainda mais cortes nos salários, redução da TSU... e por aí adiante. O resgate continua, assim, a ser o seguro dos credores e tudo vai bem, dizem-nos eles. Não, não vai. Justiça lhes seja feita que admitem que tudo estaria bem melhor se não tivesse havido "mudanças inesperadas". Importam-se de repetir? Mudanças inesperadas. Mas não seria de esperar que houvesse um corte nas receitas em resultado do aumento exponencial do desemprego? Qualquer um de nós consegue perceber isso e não acha que seja inesperado. Desde há um ano que a cada mês há novos 10 mil desempregados em Portugal. Inesperado? Não me parece.

Decisão após decisão, a regra continua a ser a mesma. Este é o modelo que coloca o país como refém não só por muitos anos como para muitos anos. E o governo? Regozija-se. Acha que está a fazer tudo bem, apenas com algumas "inesperadas" mudanças. Governo diminuído este, que tem margem de manobra e se recusa a usá-la, que assume que o trabalho é o alvo de ataque e que os trabalhadores são a garantia de reserva para que nada falhe no programa da troika. Seriedade é precisa e o governo nunca explica porque é que mantém as parcerias público-privadas intactas. É que a acção do governo não é apenas resultado de anuência, resulta também de vontade própria. A mesma vontade de quem acha que as vidas das pessoas se resolvem com o cumprimento das metas estatísticas e que recusa tocar o mundo real em que estas vivem.

Esta visita foi para o governo mais uma visita de cortesia e surpresas não houve. Daqui, os administradores coloniais levaram mais um suplemento de legitimidade para que continuem a fazer o seu trabalho. Perante eles, o governo procura ficar bem na fotografia fingindo que não governa ou manda, quando muito, fá-lo para fora.

A cada dia que passa, esta Europa vai mostrando uma coisa simples:tornou-se entranhada demais para implodir e ao mesmo tempo leve demais para voar.

Artigo publicado originalmente no diário As Beiras