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The Week

Miguel Portas

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The Guardian, 14/05/2012

Os gregos são alérgicos à austeridade

Marisa Matias

E a Grécia aqui tão perto

Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".


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O "inferno social" na Grécia

A Coligação de Esquerda Syriza adquiriu em 6 de Maio, nas eleições gregas, um protagonismo europeu à medida da intensa actividade de luta e mobilização contra a austeridade que há anos desenvolve na Grécia. Atingida por uma campanha de desinformação e manipulação devido à expressão política que conseguiu dar à revolta dos gregos contra a autocracia fundamentalista neoliberal europeia, Syriza tem um programa, um projecto, representa uma alternativa ao "inferno social". Alexis Tsipras, presidente do grupo parlamentar da Syriza expõe essa realidade numa entrevista ao Guardian com versão em português em www.esquerda.net

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Produzido por Miguel Portas   
Sábado, 19 Novembro 2011 12:35

Na Grécia e na Itália chegou o tempo dos tecnocratas à cabeça dos governos. A eles compete a gestão do estado supremo das políticas de resgate, aquele em que os mercados assumem directamente o poder sobre as nações.

Nem Luca Papademos, nem Mário Monti foram a votos. Eles são simplesmente homens da banca alcandorados aos governos de países em crise.

Ambos vão governar passando por cima da convocação de eleições antecipadas. Com menos alarido e recebendo os elogios que são devidos aos salvadores de situações de calamidade, Papademos e Monti tornam realidade o sonho que Manuela Ferreira Leite confessou num dia de inusitada franqueza - o da suspensão da democracia por seis meses para resolver as dificuldades económicas do país.

Se na Grécia as eleições foram apenas adiadas, já em Itália Mário Monti alimenta a expectativa de concluir uma legislatura que vai até 2013. De “salvação nacional”, o seu governo mistura “técnicos” do berlusconismo e “técnicos” do centro-esquerda. O mix tem sido vivamente apoiado no exterior. Na verdade, é um governo que coloca o parlamento italiano ante um dictat muito simples – ou nós ou a escalada da especulação sobre a dívida ante um cenário de eleições antecipadas. A coisa parece funcionar... mesmo que a dita especulação tenha alegremente prosseguido depois da indigitação.

Puxo pela memória e recorro à história: nos anos sessenta, Leonid Brejnev, secretario-geral do então todo poderoso Partido Comunista da União Soviética, proclamou a sua doutrina da “soberania limitada”. Ela partia do princípio que se uma nação aliada ameaçasse trocar o socialismo pelo o capitalismo isso constituiria um problema para toda a comunidade socialista. Assim se justificou a intervenção do Pacto de Varsóvia na Checoslováquia em 1968, para derrubar Dubcek, um comunista que procurava renovar e refundar o socialismo conciliando-o com a democracia. Há quase 50 anos, Brejnev pôde impor a soberania limitada de uma forma grosseira, recorrendo a tropas e tanques.

Os tempos e os modos mudaram, os lugares também, mas não a doutrina. O que hoje se está a passar na Zona Euro cheira demais a soberania limitada. Os cínicos acham bem – quem empresta manda e ponto. Em nome desta inversão de legitimidade, a dupla de Merkel e Sarkozy já demitiu um governo que tinha acabado de vencer uma moção de confiança na noite anterior. Não contente, indicou o primeiro-ministro que lhe sucederia. Em Itália despachou Berlusconi e indigitou Mário Monti para concluir o programa de ajuste... apresentado por Berlusconi. Decididamente, o que antes se fazia com canhões resolve-se agora com spreads. Mas esta história vai acabar mal. Mesmo muito mal.

Artigo publicado originalmente no semanário Sol