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The Guardian, 14/05/2012

Os gregos são alérgicos à austeridade

Marisa Matias

E a Grécia aqui tão perto

Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".


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O "inferno social" na Grécia

A Coligação de Esquerda Syriza adquiriu em 6 de Maio, nas eleições gregas, um protagonismo europeu à medida da intensa actividade de luta e mobilização contra a austeridade que há anos desenvolve na Grécia. Atingida por uma campanha de desinformação e manipulação devido à expressão política que conseguiu dar à revolta dos gregos contra a autocracia fundamentalista neoliberal europeia, Syriza tem um programa, um projecto, representa uma alternativa ao "inferno social". Alexis Tsipras, presidente do grupo parlamentar da Syriza expõe essa realidade numa entrevista ao Guardian com versão em português em www.esquerda.net

Visões da Europa PDF Print
Written by Alexander Gerner   

Notas a 1 de Dezembro de 2009 (activação do Tratado de Lisboa)


Por Alexander Gerner *


Na primeira parte de um artigo de reflexão sobre a Europa, Gerner, filósofo e encenador residente em Lisboa, questiona sobre os valores da UE.

Visões da Europa

Esta é uma foto tirada em Portugal um dia antes do Tratado de Lisboa da União Europeia (UE) ter entrado em vigor, no dia 1 de Dezembro de 2009. É uma foto do meu filho no telhado de uma casa sobre rochas, olhando para o mar. Na verdade, ele está na costa Oeste do Oceano Atlântico em direcção à Cúpula das Américas, mas podia estar também à procura do Sul (África), do Leste (Rússia, Índia, China) ou do Norte. Ele é meio português e meio alemão, e o seu pai seja também, do coração, um alemão com raízes culturais no Leste, raízes dos alemães que estavam a pagar o seu preço quando "acolheram" a "anexação"/ocupação da Checoslováquia pelos nazis Partido Nazista da Alemanha; alemães dos Sudetas que foram expulsos depois da guerra. Até algumas semanas atrás as consequências da II Guerra Mundial e o medo historicamente fundamentado de uma Alemanha forte estavam sobre a mesa do referido tratado.

 

Recentemente comemorámos os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Desde então vimos o sistema financeiro a ser sustentado por intervenções coordenadas a nível comunitário, nacional e internacional. Vimos governos conservadores terem acções contrárias aos seus princípios ideológicos de "mercado livre", vimos intervenções estatais parciais maciças – mesmo que a ideia fosse tratar-se de uma excepção à regra. No fim, todos os actuais membros da UE, incluindo a República Checa e a Polónia, assinaram o Tratado de Lisboa e a União deu um novo passo em frente, gostemos ou não disto.

Além de todos os detalhes de um “melhor funcionamento” e “operabilidade” de uma Europa alargada,  entrada em funcionamento de uma Europa maior, a questão permanece sobre que visão é que a UE tem do futuro, que  consequências trará para além da construção econômica e como influenciará o quotidiano da sua populações, para além de permanecer como um jogador global em assuntos económicos e políticos. Ouvimos no discurso de Durão Barroso que existem "valores" – infelizmente não debatidos em grande escala com a população da Europa – da União Europeia que o Tratado representa. Porém, isso não depende deste ou de qualquer outro tratado, mas da vontade política e empenho, e, ao contrário de Durão Barroso, eu diria que não depende apenas dos líderes das nações que a UE e da sua ajuda mútua, mas também dos povos da Europa. A paz, o cosmopolitismo, a circulação livre, o equilíbrio de poderes, a responsabilidade social e de riqueza económica para o povo e da responsabilidade do ambiente para com o resto do mundo não é uma questão de liderança. É uma questão de implantar a visão da Europa em cada um dos seus habitantes.

Aproveito esta foto como um ponto de orientação. Você está aqui!

Para mim, pensar sobre a Europa a partir deste ponto é pensar sobre como a visão de um horizonte amplo e aberto e a descoberta de novas formas de cooperação e co-responsabilidade irá influenciar a vida de meu filho, e como ele e milhões de outras pessoas vão utilizar esta visão na vida diária. Estarei preparado para pensar sobre a manutenção da paz e o envio do meu filho para missões como a do Afeganistão? A resposta imediata é: claro que não. Mas poderei negar que a questão da segurança, o debate militar da UE ou a criação de uma força policial devam ser ignoradas? Ou, dito de outro modo, a UE pode ficar com o seu ideal de paz apenas nas suas próprias fronteiras e ser dependente dos EUA/NATO como comandantes-em-chefe, com todos os efeitos secundários que sabemos da guerra contra o terror, com a qual ainda temos de lidar? A UE não está preparada para lidar com a guerra neste exacto momento, nem está preparada para que um estado membro entre em guerra com outro país ou aspire a romper as fronteiras de outro país. E quanto à questão do Kosovo? Estas questões são muito negligenciadas no debate sobre o estatuto dos novos membros e dos antigos também. Espanha nunca poderia aceitar o Kosovo como um "país independente", pois teme que o mesmo aconteça dentro de suas próprias fronteiras. E sobre a Bélgica e a sua separação em duas partes? Terá necessariamente um estado belga duplo ter de ser membro da UE? Qual é a posição da UE nesta questão?

Os soldados alemães, de acordo com a Lei Fundamental da Alemanha, não estão autorizados a participar em acções de guerra, a não ser que represente uma defesa da Alemanha, mas este direito fundamental é esvaziado pelas participações nas ações recentes da NATO, desde o bombardeamento de Belgrado à participação real no Afeganistão. Nenhum funcionário em Berlim pode chamar neste momento chmara “guerra” à guerra. Apenas parte da nova oposição – Die Linke – é clara sobre este ponto ao ver a participação alemã no Afeganistão como ilegal de acordo com a sua própria lei. Porém, a retirada das tropas alemães tem de ser bem organizada.

Pensarei que a UE deve compreender os seus valores como universais (e imperiais) numa perspectiva kantiana? Creio que as ideias do Iluminismo nunca poderão ser impostas a ninguém, como o próprio Kant declarou. Têm que surgir de visão própria e crescerem analogamente nos países que necessitam de mais justiça, de menos violência, de mais construção de forma a dar às pessoas a oportunidade de uma vida melhor. Como poderá a UE ajudar neste processo?

This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it * Encenador e membro do Centro de Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa

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http://jacarandascienceandart.blogspot.com

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