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Documento do regime Merkel, Janeiro de 2012

Dado o cumprimento decepcionante até agora, a Grécia tem de aceitar deslocar a soberania orçamental para o nível europeu durante algum tempo

Miguel Portas

O power point

O Conselho Europeu de fim de Janeiro incluiu na sua agenda a palavra maldita dos últimos dois anos: “crescimento”. Terão os 27 chefes de Estado e de governo da União mudado de ideias? Convenceram-se que, afinal, temos um problema de crescimento? Entraram no campeonato do relançamento económico? Sabem, ao menos, se ele é compaginável com a austeridade?


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Gregos não se dão por vencidos PDF Versão para impressão
Sexta, 05 Março 2010 18:03

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     Reuters/Yiorgos Karahalis

 

Milhares de gregos responderam com protestos nas ruas à aprovação pelo Parlamento de um novo pacote de medidas de austeridade que atingem principalmente salários e pensões sociais. A polícia carregou sobre manifestantes, como já fizera durante a anterior greve geral. O primeiro ministro Papandreu iniciou uma viagem ao estrangeiro pedindo apoios à sua estratégia contra o défice. Políticos da área governamental alemã sugerem que a Grécia venda algumas das suas ilhas desabitadas.

A maioria socialista do Parlamento de Atenas aprovou as medidas governamentais que impõem novas medidas contra o défice no valor de 4800 milhões de euros financiadas por cortes de salários, congelamento de pensões sociais, aumentos de impostos - sobretudo o IVA - e combate à evasão fiscal. Segundo o executivo de Papandreu, as medidas inserem-se nos esforços para baixar este ano o défice público de 12,7 por cento para nove por cento do PIB. Giorgios Papakonstantinou, ministro das Finanças, declarou que a adopção de medidas drásticas fica por aqui, numa altura em que o apoio maioritário à austeridade que as sondagens vinham anunciando começou a sofrer forte erosão. "Desta vez convenceremos os nossos parceiros de que dizemos a verdade", acrescentou o ministro.

Os estudos de opinião mais recentes revelaram que 90 por cento dos trabalhadores da Administração Pública se opõem a reduções da ordem dos 12 por cento nos 13º e 14º mêses. No exterior do sector metade dos inquiridos pronunciaram-se contra, situação que começa a minar a tese governamental segundo a qual a maioria da população era favorável às medidas de austeridade.

Os principais sindicatos gregos responderam à decisão parlamentar promovendo greves por sectores e anunciando desde já nova greve geral para o próximo dia11. Na sexta-feira paralisaram os transportes públicos e as escolas, o funcionamento dos hospitais foi reduzido ao mínimo, os controladores aéreos solidarizaram-se, facto que provocou novos atrasos e cancelamentos de voos no aeroporto de Atenas.

A polícia voltou a carregar sobre manifestantes e utilizou gases lacrimogéneos. Uma das vítimas dessa acção foi Manolis Glezos, resistente da Segunda Guerra Mundial hoje com 87 anos, que se celebrizou por ter arriado a bandeira com a suástica da Acrópole em 1941. Foi hospitalizado devido ao efeito dos gases lacrimogénios.

Membros de alguns grupos que integraram as manifestações de protesto chegaram a agredir Giannis Panagoupoulos, presidente da Confederação Geral de Trabalhadores (GSEE), quando este fazia um discurso na zona do Parlamento. O dirigente sindical sofreu ferimentos ligeiros.

O Partido Comunista Grego (KKE) retirou-se do debate parlamentar anunciando a intenção de "continuar a luta nas ruas", segundo a secretária-geral, Aleka Papariga.

"Vendam as vossas ilhas"!

Depois da aprovação das novas medidas no Parlamento, o primeiro ministro Giorgios Papandreu iniciou uma visita ao estrangeiro procurando angariar apoios que diz serem apenas "políticos" para a situação que vive o seu país. A primeira escala foi sexta-feira na Alemanha, para encontros previsivelmente difíceis com a chanceler Angela Merkel. A Alemanha tem-se distinguido na União Europeia através da decisão de não apoiar financeiramente a luta contra o défice grego, facto que levou Atenas a levantar o velho contencioso entre os dois países sobre as díividas de guerra alemãs. Segundo a parte grega, a Alemanha apenas satisfez muito parcialmente, em 1960, as suas dívidas relacionadas com o ouro, o dinheiro e os bens gregos extorquidos durante a Segunda Guerra Mundial, mas Berlim diz que as contas estão encerradas. 

No meio da polémica, deputados da maioria governamental alemã sugeriram que a Grécia venda algumas das suas ilhas desabitadas para ajudar a pagar as dívidas. Josef Schlarman, deputado do partido Democrata Cristão de Merkel, e Frank Schaeffler, do Partido Liberal, defenderam que a Grécia deve vender o seu património para gerar receitas, opinião que levou o jornal sensacionalista "Bild" a titular em manchete: "Gregos falidos, vendam as ilhas e a Acrópole também". Os deputados fizeram declarações do mesmo teor à BBC propondo debates para encontrar as maneiras de a Grécia sair da crise. "Quem não consegue pagar aos credores tem que vender o que possui", disse Schlarmann ao mesmo tempo que apelou à chanceler para manter a recusa de apoio financeiro.

Depois da Alemanha, Papandreu viajará para França e, na próxima semana, para os Estados Unidos. O FMI continua a ser uma alternativa para Atenas, que encontra na União Europeia importante resistência. O assunto estará no centro das reuniões de Papandreu com Sarkozy, principal opositor a essa opção para não dar trunfos ao actual presidente do Fundo, Strauss-Khan, seu rival política na perspectiva das eleições presidenciais de 2012.

Analistas consideram entretanto que os mercados reagiram bem à emissão por bancos privados de títulos da dívida grega a dez anos, no valor de cinco mil milhões de euros. Segundo fontes do banco britânico HSBC, a esmagadora maioria dos títulos foi comprada por entidades estrangeiras: 33 por cento por alemãs e francesas, oito por cento por asiáticas e 23 por cento apenas por gregas.