| Candidato de Washington à frente no Iraque |
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| Segunda, 08 Março 2010 19:25 | |||
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Foto AP As primeiras estimativas dão a vitória nas eleições iraquianas ao primeiro ministro Al-Maliki, o candidato do poder militar norte-americano. Mais difícil do que chegar na frente será, porém, formar governo. Perante a complexidade do processo de contagem num país que continua submetido a gravíssimos episódios de violência, a comissão eleitoral iraquiana pediu aos responsáveis das listas concorrentes que se abstivessem de tecer considerações sobre eventuais resultados das eleições gerais de domingo antes que sejam divulgados oficialmente, o que só deverá acontecer dentro de alguns dias. A lista do primeiro ministro em funções, intititulada "Coligação pelo Estado de Direito", foi a primeira a ignorar essa solucitação e a declarar que obteve bons resultados em Bagdade e no sul de maioria xiita. Outras se seguiram dentro do mesmo tom, reclemando êxitos nas suas principais zonas de influência, mas nenhum destes dados é conclusivo. De concreto existem algumas sondagens à boca das urnas e alguns primeiros resultados muito parciais que colocam a lista de Nuri Al-Maliki na frente, possívelmente com uma vantagem muito reduzida sobre algumas das principais rivais. O dado mais concreto conhecido é o da afluência às urnas, da ordem dos 62 por cento, muito saudado pelo presidente dos Estados Unidos e enaltecido pela comunicação social do regime apesar de se situar 13 pontos percentuais abaixo das primeiras eleições gerais e bem aquém das previsões iniciais. Apesar de alguns primeiros comentários registarem nestas eleições uma diminuição das escolhas em função das comunidades que se confrontam no país desde o início da invasão, esta realidade continua a ser mais forte do que qualquer argumentação política. Não se discutiu política na campanha, dando-se como certo que o conteúdo político está adquirido como subsidiário do sistema económico neoliberal determinado pelos poderes invasores desde 2003. O governo de Al-Maliki vai continuar em funções enquanto não se conseguir formar um novo executivo. O primeiro ministro procurou distanciar-se do conteúdo religioso da sua coligação e do papel dominante nela representado pelo partido confessional xiita Dawa, liderado pelo próprio Maliki, mas o esforço foi pouco convincente. A Coligação pelo Estado de Direito representa os sectores religiosos xiitas ditos "moderados", os mais influentes no país enquanto comunidade e estrato em que assentou a infra-estrutura política criada pela invasão. O Conselho islâmico Supremo do Iraque e o grupo de Muqtad al-Saadr, dignitário religioso xiita radical residente no Irão, são rivais de Al-Maliki dentro da comunidade xiita e os seus resultados são uma incógnita sobretuto desde que Al-Saadr apelou à ida às urnas, ao contrário do que aconteceu nas eleições legislativas anteriores. A lista Iraqiya, do ex-primeiro ministro Ayad Allawi, poderá ser, contudo, a principal adversária do candidato apoiado pelos Estados Unidos devido ao seu esforço, aparentemente bem sucedido, de incursão pela comunidade sunita, que tem sido globalmente marginalizada pelo poder por dela ter emergido o regime de Saddam Hussein. Segundo as considerações gerais, incluindo as dos observadores internacionais, o acto eleitoral decorreu com normalidade e sem fraudes - uma realidade que deve ser entendida apenas em relação ao acto de votar. A preparação do processo eleitoral, porém, foi caracterizada pela actuação de uma comissão de selecção de candidaturas chefiada por Ahmed Chalabi, ele próprio candidato a chefe do governo e que durante o período que antecedeu a invasão, quando vivia em Londres, foi considerado o homem de confiança da CIA para dirigir o Iraque após o derrube de Saddam. Chalabi apresentou-se a estas eleições sob a consigna "o destruidor do baasismo" (de Baas, partido de Saddam Hussein) e como responsável da comissão de selecção excluiu cerca de meio milhar de candidatos (8,5 por cento do total), todos eles da comunidade sunita, alegando supostas ligações ao antigo regime. A lista Iraqiya, apesar de também ser oriunda da comunidade xiita, conseguiu graças ao seu secularismo e à abertura a outras comunidades surgir como a mais integradora e a que, na falta de uma poderosa lista própria, mais apoios alcançou entre os sunitas. Allawi foi primeiro ministro e governou com Al-Maliki mas a sua visão de um Iraque laico, politicamente integrado e esbatendo as divisões entre comunidades entrou desde logo em colisão com os sectores religiosos xiitas e a aposta neles feita pelos ideólogos da estratégia norte-americana. Segundo fontas da própria lista, a Iraqiya teve boa prestação nas zonas sunitas a Norte e a Oeste, além de contar com o apoio de influentes sectores seculares xiitas. Al-Maliki deverá ter que negociar com Allawi e o estabelecimento de um acordo não será fácil. A comunidade curda é também um caso à parte e que implicará negociações duras para formação do governo apesar da adesão dos seus dois principais partidos - o Democrático e a União Patriótica - ao regime saído da invasão. O trunfo dos principais representantes do Curdistão Iraquiano será, como sempre, a exploração da riquezas petrolíferas da região de Kirkuk. No cenário curdo surgiu entretanto uma terceira força - Goran ou Mudança - que poderá alterar o cenário regional à custa, sobretudo, de um enfraquecimento da influência da União Patriótica, um dos grupos históricos da luta pela libertação do Curdistão mas que desde a definição da "zona de exclusão aérea", na primeira guerra do Golfo, se converteu à estratégia norte-americana para o Norte do Iraque. O novo partido curdo poderá, eventualmente, alterar as relações negociais de forças da comunidade curda de uma forma menos colaborante com o poder actual em Bagdade. Cerca de 19 milhões de eleitores estavam inscritos para estas eleições gerais no Iraque. Apresentaram-se 6200 candidatos para 325 lugares no Parlamento de Bagdade. O acto eleitoral decorreu com a presença de 100 mil soldados norte-americanos no país.
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