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O filme A Origem, de Christopher Nolan, não é nenhum tratado sobre a origem das ideias mas explora bem a nossa imagem moderna sobre o assunto. Uma abordagem de Tiago Ivo Cruz.
Começar por entender uma Ideia como entidade. Um corpo autónomo cujo único propósito é expandir-se, ganhar espaço, eliminar outras ideias se necessário, conjugar-se com outras das mais variadas formas para sobreviver. Em geral, acreditamos ser criadores de uma ideia e chegamos mesmo a imprimir uma posse de autoria a uma ideia, sem dúvida para ela não nos fugir. Se ela for muito boa, temos cuidado em não falar às pessoas erradas sobre essa ideia, para não a deixar escapar ou perder a sua virtude e potencialidade sobre a qual só nós a conseguiremos construir. Pois uma ideia tem esse poder extraordinário, consegue tornar-nos os veículos orgulhosos de algo que não nos pertence nem em geral conseguimos controlar. Algumas ideias são particularmente virulentas. A ideia de um ser superior, um Deus, ganhou espaço em praticamente todo o mundo, de variadas formas e, pelo meio da sua longa história conseguiu ainda atacar outra ideia, a de vários deuses. E é extraordinário o quão resilientes algumas ideias podem ser. Apesar da descoberta do método científico e de todas as novas ideias e processos abertos por esta conquista humana a ideia de Deus subsiste. O filme A Origem, de Christopher Nolan, não é nenhum tratado sobre a origem das ideias mas explora bem a nossa imagem moderna sobre o assunto. Começa com a seguinte questão: “Qual é o parasita mais resistente? O parasita mais resistente é uma ideia. Uma ideia cresce dentro de nós, faz o mundo girar e tem o potencial de o destruir tal como nós o conhecemos.” A partir daqui partimos para uma viagem de entropia e colapso entre vários planos de consciência. Mundos literalmente construídos pela força da imaginação, com pouco respeito pelas leis do espaço e do tempo, por onde os personagens se movem. Uma ambiência que lembra Les Cités Obscures criadas por Schuiten & Peters, e uma acção explosiva e bem construída digna de Matrix. Nem os diálogos nem a construção dramática escapam ao cliché habitual norte americano, a relação entre filho e a figura do Pai (o colonialismo deixa marcas profundas). Felizmente os actores são muito bem escolhidos. Mas é a exploração dos mundos entrópicos, de planos que existem dentro de outros planos, como forma de representar o nosso consciente moderno que mais impacto deixa, porque actualiza as nossas questões e imagem identitária. Uma pessoa tem hoje pelo menos um computador, normalmente mais um no trabalho, mais um telemóvel inteligente, talvez mais um iPad. A nossa informação espalha-se por estes diferentes suportes e, somos assim fraccionados em diferentes entidades, num processo impossível de controlar pois ainda dentro de cada suporte teremos ainda imagens diferentes da mesma informação. A nossa identidade é hoje formada de planos dentro planos, uma entropia interminável cuja origem não conseguimos determinar. Em El acercamiento a Al-Mu’tasim Jorge Luís Borges explora o que seria a procura pela origem. Um advogado que comete homicídio não premeditado decide procurar o homem perfeito Al-Mu’tasim e, embarca por uma viagem de pista em pista que muitas vezes não passam de um sorriso, uma frase ou uma imagem que lhe indica o próximo passo até à origem.
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