| A fatia dourada |
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| Written by Rui Tavares | |||
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Um combate entre Portugal e Espanha por causa do Brasil — vá lá, entre uma empresa espanhola e uma empresa portuguesa por causa de uma empresa brasileira — anda à volta de uma expressão inglesa: a golden share, ação de uma empresa que vale mais do que o seu capital, porque detém o poder da guilhotina, do sim ou do não. Traduzida à letra, a golden share poderia ser a fatia dourada — se não me engano, o nome de uma iguaria. A utilização da golden share não tem muito que saber. Os defensores da infalibilidade do mercado costumam muito falar de "transparência", mesmo em situações em que a complexidade artificial de um produto se destina a iludir, enganar, ocultar. Já a golden share do estado na PT é extraordinariamente simples: toda a gente sabia que existia e que detinha um poder de veto. Toda a gente que comprou ações da PT estava implicitamente informada da possibilidade de ela ser usada. Foi isso que aconteceu e — independentemente de outras considerações — ninguém se pode queixar de não ter contado com este cenário. Assunto encerrado. *** Isso deixa muito espaço em crónica para um assunto que me interessa mais: o lugar do nacionalismo neste debate. Um colega espanhol abordou-me para demonstrar o seu espanto pela atitude do governo espanhol e deplorar o que lhe parecia ser o colonialismo lusitano. Em Espanha, país de grande soberba e vistas dominantes sobre o continente americano, surpreendem-se pelo que certamente consideram o devaneio do país seu vizinho. Se nos ouvissem falar sobre a posição de Portugal no mundo, julgariam que estamos loucos e diriam que somos demasiados pequenos para isso: um país pequeno tem localização no mundo, mas não mais. Felizmente, eles não estão atentos às nossas conversas. Não imaginam que quanto menor é o país maiores podem ser as ilusões. Do outro lado do atlântico, há no Brasil muito antilusitanismo que se esforça por não nos querer. É comum ouvir suspirar que "se tivéssemos, nós brasileiros, sido colonizados por outro povo que não os portugueses..." (divirto-me sempre a completar: "...naturalmente, não seriam brasileiros"). Os ingleses, os holandeses, os franceses e até os espanhóis são muitas vezes os colonizadores retroativamente ansiados por brasileiros que, não querendo entender Portugal, terão sempre grande dificuldade em entender-se a si mesmos. Não sabem que mesmo as comparações, hoje na moda entre a elite brasileira, com a China e a Índia, não são originais: foram introduzidas na reflexão sobre o Brasil em pleno século XVIII, por portugueses como Luís da Cunha e luso-brasileiros como Alexandre de Gusmão. A propósito, duvido que José Sócrates saiba que este último foi seu antecessor, e muito menos que ele foi nascido em Santos, no litoral paulista. E quantos portugueses sabem que tiveram um Presidente nascido no Rio de Janeiro? Também deste lado, os devaneios sobre o Brasil são feitos de muita ignorância. *** Tanta obsessão com o Brasil fez-nos distrair da visita de Cavaco Silva a Cabo Verde. Dos cinco discursos com que foi brindado, três citaram palavras ou o nome de José Saramago, o escritor cuja homenagem ele mesquinhamente evitou. Cabo Verde é o lugar onde podemos aprender quem fomos, quem somos e — se prestarmos atenção — talvez quem viremos a ser. Cabo Verde detém, modestamente como é seu hábito, uma fatia dourada da nossa consciência.
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