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The Guardian, 14/05/2012

Os gregos são alérgicos à austeridade

Marisa Matias

E a Grécia aqui tão perto

Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".


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O egoísmo colectivo, para memória futura PDF Print
Written by Redacção de The Week   

pedintes02

 

Por Marisa Matias

Reza a história recente que a crise financeira se instalou de vez em Setembro de 2008. Disseram-nos que vinha de fora e que nada podíamos fazer. Essa foi a primeira fase. Agora, enfrentamos uma segunda: a crise das dívidas soberanas. Disseram-nos, desta vez, que podíamos fazer alguma coisa. A essa coisa deu-se o nome de austeridade. Mas entre o 'deserto' de medidas e a austeridade houve assim tanta diferença? Na "primeira fase" da crise, o sistema bancário foi salvo com injecções infinitas de capital. Na "segunda fase", a salvação do sistema bancário foi feita às custas dos trabalhadores e dos contribuintes. Sim, sempre há uma coisa em comum: a salvação do sistema bancário.

O que se passa agora é que as medidas passaram à forma de plano, e o plano diz que temos como solução uma gigantesca operação de transferência do valor do trabalho para o capital financeiro. Este processo tem sido feito por duas vias: a primeira, o aumento dos impostos; a segunda, a redução dos salários, tanto os salários directos como os salários indirectos.
Afinal, a mesma crise. Afinal, o mesmo modelo de resposta. Mas há diferenças de país para país e não devemos subestimá-las. As medidas tomadas nos diferentes países europeus mostram duas conclusões claras. A primeira é que onde o Estado providência é mais forte é mais difícil o ataque aos direitos. Fazendo uma muito rápida comparação entre Portugal e a Bélgica, na Bélgica seria inaceitável que 50 por cento dos desempregados não tivesse acesso ao subsídio de desemprego como acontece em Portugal. A segunda é que onde a esquerda política é mais influente é também mais difícil ao capital manipular o conjunto da sociedade em seu próprio benefício.
Mas há, sobretudo, um ensinamento importante: esta crise revelou a fundo como o velho discurso da direita - segundo o qual as pessoas vivem acima das suas possibilidades - está a ganhar terreno. Há uma maré de egoísmo social na Europa rica que está a vingar. Esse egoísmo social é o que diz que os pobres são pobres por sua responsabilidade, que os desempregados são desempregados porque não querem trabalhar, que os emigrantes são um problema e que os muçulmanos deveriam ser expulsos da Europa. É só esse egoísmo que justifica que, esta semana, Bruxelas tenha vindo dizer que é preciso acrescentar ainda mais austeridade à austeridade apresentada pelo governo português.

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