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A coragem de Aminetu dobrou as grandes potências PDF Print
Written by José Goulão   

A coragem de Aminetu dobrou as grandes potênciasAminetu regressou a sua casa e para junto dos seus em El Aiun. Foi uma vitória da resistência humana, do povo saraui e da solidariedade internacional.

 
Quando a activista saraui Aminetu Haidar conseguiu finalmente abraçar os seus familiares, em sua casa, vivia já o 33º dia em greve da fome, dolorosa forma de luta por direitos humanos, cívicos e nacionais. Poucas horas antes, ao fim do dia de sexta-feira, dia 17, o reino de Marrocos autorizara o seu regresso a casa, cedendo em todas as exigências que colocara antes e, em princípio, sem contrapartidas.


Aminetu não teve que pedir quaisquer desculpas, voltou à sua terra e recuperou o seu passaporte das mãos das autoridades de ocupação. Não é o passaporte que ela deseja e pelo qual combate, o de cidadã saraui, mas é o documento que lhe permite movimentar-se, pesem embora as condicionantes que lhe são impostas pelos responsáveis marroquinos. “Foi uma vitória do direito internacional e da justiça internacional”, declarou à saída do aeroporto de Lanzarote, o cenário do seu sofrimento, que começou quase incógnito e que, dia a dia, foi chegando às consciências de cada vez maior número de cidadãos do mundo. A gigantesca cadeia de solidariedade assim criada e que partiu das plataformas cívicas que desde logo se mobilizaram para dar conta do drama humanitário de Aminetu Haidar, ganhou uma dimensão que atemorizou as autoridades marroquinas. Uma simples mulher munida da sua razão, apoiada na solidariedade dos que lha reconhecem, vergou um reino poderoso que conta com as maiores potências mundiais entre os seus amigos. A resistente saraui fez recuar não apenas Marrocos mas também os Estados Unidos, França e Espanha, sem contar com as instituições da União Europeia, que tudo fizeram para passar ao largo do drama, com excepção de alguns grupos políticos e deputados do Parlamento Europeu.

O governo português, sintonizado com os círculos de onde saem os apoios activos ou por omissão à ocupação marroquina do Saara Ocidental, assumiu um silêncio e um distanciamento impróprios de um país que afirma e repete a fidelidade aos direitos humanos. São direitos humanos que estão em causa no Saara Ocidental, mas como em tudo o que é situação internacional, como ficou demonstrado em Oslo quando o Nobel da paz proclamou guerras “justas” e “injustas”, também há direitos humanos a respeitar, os dos “bons”, e outros a ignorar, os dos “maus”.

A sociedade civil, porém, com um poder crescente que ela própria vai percebendo, isolou o governo e conseguiu que a partir de Portugal chegassem a Aminetu Haidar as mensagens de solidariedade que também tiveram a sua quota parte no desfecho do processo.

Marrocos encontrou junto dos Estados Unidos a saída para um processo que começava a criar dificuldades internas e diplomáticas ao regime de Moamed VI. Este problema foi reconhecido através de declarações de membros do governo de Rabat, por exemplo o ministro da economia que, na véspera do desfecho, afirmou que a greve da fome de Aminetu Haidar estava a criar embaraços. Percebeu-se que para Marrocos o desenlace trágico da luta da resistente saraui poderia minar a eficácia de apoios internacionais que tem tido para manter a ocupação da antiga colónia espanhola.

Moamed VI despachou então para Washington dois homens da sua confiança, o chefe de gabinete e o chefe dos serviços secretos, e em cerca de 24 horas tudo se resolveu através de contactos no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional. Enquanto Aminetu se certificava de que a solução proposta não tinha de facto exigências de Marrocos, a senhora Clinton – que 48 horas antes considerara o assunto um problema bilateral entre Espanha e Marrocos – elogiava a “generosidade” marroquina ao permitir o regresso da resistente saraui a casa. Logo a seguir foi a vez do presidente francês Nicolas Sarkozy recorrer ao mesmo adjectivo – “generosidade” – para elogiar a grandeza da decisão e a tradição do reino de Marrocos. Também o presidente do governo espanhol realizou esforços para dar a entender que interviera na solução do problema mas em caso algum se ouviu a estes estadistas uma palavra sobre Aminetu Haidar. Para eles, pouco mais fora do que a criadora de um incomodativo problema que adquiriu dimensões indesejadas.

A luta de Aminetu, além de ser um exemplar triunfo de um processo de resistência cívica capaz de embaraçar as grandes potências, teve como consequência a recolocação do problema do Saara Ocidental em cima da mesa. Mais do que as questões humanitárias levantadas pelo seu drama, este foi o busílis do problema que inquietou Moamed VI, Clinton, Sarkozy, Zapatero e outros que escolheram fingir que nada têm a ver com o assunto.

A situação de ocupação do Saara Ocidental por Marrocos parecia um assunto internacionalmente morto desde 2008, altura em que se registou nova ruptura nas negociações para aplicar as decisões da ONU no território.

A resolução do problema da descolonização do Saara Ocidental depende, em termos gerais, da realização de um referendo sob a égide da ONU através do qual será apurada a vontade do povo saraui e que prevê a declaração de independência se assim for o desejo manifestado.

A organização do referendo arrasta-se há longos anos sem que a ONU consiga encontrar maneira de realizar um recenseamento reconhecido pelas partes envolvidas nas negociações, Marrocos e a Frente Polisário. Como em todas as situações deste tipo – como se percebe também no conflito israelo-palestiniano – o tempo joga a favor do ocupante. Marrocos tem utilizado a estagnação do processo para incentivar a deslocação de colonos para o Saara Ocidental de modo a criar uma relação de forças no recenseamento favorável à anexação definitiva do território. Além disso, como tem sido revelado frequentemente pela Frente Polisário, o regime marroquino tem multiplicado artifícios para evitar reconhecer como sarauis cidadãos que têm realmente as suas origens no território. Os altos responsáveis da ONU que sucessivamente tomaram conta da pasta deste processo não têm tido energia, vontade ou a coragem de contribuir eficazmente para a definição dos mecanismos e critérios necessários à realização do referendo, pondo fim às manobras dilatórias.

Ainda Amineti Haidar não chegara a casa já o governo espanhol anunciava que uma das consequências do processo de Lanzarote é o empenhamento directo dos Estados Unidos e de França na reactivação das negociações sobre o Saara Ocidental, embora coubesse à ONU tomar essa iniciativa.

Este passou a ser agora o centro da questão. Até ao momento, Marrocos cedeu em toda a linha perante a luta de Aminetu Haidar, mas não é provável que o assunto seja assim tão linear tendo em conta as partes que encontraram a solução. Durante as horas dos encontros em Washington falou-se sempre das contrapartidas que Marrocos pretenderia obter e foi com surpresa que o triunfo da resistente saraui acabou por ser total. É especulativo, mas não irrealista, admitir que Marrocos assegurou munições para a fase seguinte, a do eventual reinício das negociações. Sabendo-se como são estreitas as relações dos Estados Unidos e de França com Marrocos, não é descabido supor próximos entendimentos em torno da estratégia marroquina para as negociações.

Esse será o próximo capítulo. Por agora, Aminetu Haidar, o povo do Saara Ocidental e os cidadãos do mundo que com eles se solidarizam têm a noção de que a causa saraui saiu reforçada e que a lenta agonia em Lanzarote não foi em vão.

Um mês e alguns dias depois do início da greve da fome de Aminetu Haidar opinião pública mundial conhece muito melhor o que está em jogo no Saara Ocidental.

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