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Ciganos e canalhas PDF Print
Written by Miguel Portas   
Saturday, 28 August 2010 11:09

Se tivesse que seleccionar o acontecimento político deste verão, seria certamente o da deportação de ciganos para o Kosovo, a Roménia e a Bulgária. Tudo começou pianinho, em Abril, quando o governo alemão impôs ao seu protectorado kosovar um acordo para o acolhimento de 14 mil ciganos.

Berlim fez tábua rasa de todas as recomendações da ONU contra deportações para um território que, além de não ter condições para receber, é o paraíso da máfia na Europa.

O segundo momento desta história canalha passou despercebido: em fins de Julho, o governo flamengo despachou umas centenas de ciganos para a Valónia. Este gesto antecedeu a campanha que iria nascer no país ao lado. Atolado num escândalo de financiamento partidário contra “esquecimento fiscal”, o presidente francês decidiu dar visibilidade a uma política que a sua administração já praticava há dois anos: a deportação regular de ciganos para a Bulgária e a Roménia. Durante Agosto, o governo de Paris aliou a demolição de dezenas de campos de caravanas à deportação de centenas de ciganos. Em redor destas duas operações foi montado um circo mediático com dois alvos: por um lado a comunidade das vítimas, acusada de preferir a ladroagem à integração; e, por outro lado, Bruxelas, suspeita de não financiar os programas para a fixação dos ciganos nos seus países de origem.

Em face das primeiras reacções de Budapeste, de organizações humanitárias e da própria comissão europeia – afinal, a livre circulação de europeus na União consta dos Tratados e as verbas podem ser usadas desde que os governos apresentem candidaturas para o efeito – de imediato Berlusconi saltou em defesa do aliado francês. Por seu turno, a Liga Norte, que detém a pasta do interior, aproveitou a boleia gaulesa para exigir novas expulsões. Em Itália, a situação não se compara à que enfrentam as crianças ciganas na república checa – onde um terço se encontra escolarizada em escolas para deficientes mentais - mas a via para o delírio xenófobo tem vindo a ser traçada, nos últimos anos, com expulsões violentas e o agravamento dos quadros legais.

Parafraseando Karl Marx, a História repete-se, primeiro como tragédia e depois como paródia. Há 70 anos, o nazismo enviou os ciganos para o holocausto. Agora, a direita europeia, num gesto magnânimo, apenas os deporta. Melhorámos? No dia em que deixarmos de pensar “que a culpa é dos ciganos” ou que “eu não sou racista, mas...”, acredito que sim. Até lá, continuaremos a merecer líderes ignorantes, oportunistas e rascas.